Uma das perguntas que mais ouço no consultório atualmente é: “Dr. Bruno, estou tomando Ozempic (ou Wegovy, Saxenda, Mounjaro) e quero fazer lipoaspiração – posso fazer junto ou preciso parar o medicamento?” Se você está nessa situação, saiba que não está sozinho. Com o aumento do uso de medicações GLP-1 para emagrecimento, essa dúvida se tornou extremamente comum e merece uma resposta clara e responsável.

Neste artigo, vou explicar a relação entre essas medicações e a segurança da cirurgia plástica, quando pausar o tratamento, por quanto tempo, e qual o momento ideal para combinar o emagrecimento com procedimentos de contorno corporal como a lipoaspiração.

Por que Ozempic e outras medicações GLP-1 preocupam na cirurgia?

As medicações conhecidas como agonistas do receptor GLP-1 – que incluem semaglutida (Ozempic, Wegovy), liraglutida (Saxenda), dulaglutida (Trulicity) e tirzepatida (Mounjaro) – podem aumentar o risco de aspiração durante a anestesia por seus efeitos na motilidade gastrointestinal, particularmente o esvaziamento gástrico retardado.

O que isso significa na prática? Essas medicações fazem com que o estômago demore mais tempo para esvaziar, mesmo após o jejum recomendado antes da cirurgia. Durante a anestesia geral, se houver conteúdo no estômago, existe o risco – felizmente raro, mas sério – de aspiração pulmonar, que é quando o conteúdo gástrico entra nos pulmões.

Por esse motivo, a Sociedade Americana de Anestesiologistas e outras entidades médicas publicaram orientações clínicas sobre o uso perioperatório de GLP-1, que cirurgiões plásticos do mundo todo estão seguindo para buscar a segurança dos pacientes.

Quanto tempo preciso parar a medicação antes da lipoaspiração?

A resposta depende do tipo de medicação que você usa, pois cada uma tem uma meia-vida diferente:

  • Medicações diárias (como Saxenda/liraglutida): geralmente recomenda-se descontinuação de 24 a 48 horas antes da cirurgia
  • Medicações semanais (como Ozempic, Wegovy, Mounjaro): as diretrizes recentes recomendam suspender por pelo menos uma semana antes de cirurgia eletiva

Na minha prática, costumo ser mais conservador e orientar a pausa de pelo menos duas semanas antes de qualquer procedimento com anestesia geral, especialmente em cirurgias de contorno corporal. Essa recomendação considera não apenas a meia-vida da medicação, mas também os eventos adversos gastrointestinais que levantam preocupações sobre aspiração e morbidade pós-operatória.

É fundamental que você converse tanto com o médico que prescreveu a medicação quanto comigo em consulta. Algumas situações podem exigir períodos maiores de pausa, dependendo da sua resposta individual ao medicamento e se você apresenta sintomas como náusea, vômitos ou desconforto abdominal.

Devo fazer a lipoaspiração durante o emagrecimento ou só depois?

Essa é outra dúvida muito frequente e a resposta tem a ver com resultados e segurança.

O momento que costumo considerar mais adequado para fazer procedimentos de contorno corporal, na maioria dos casos, é após atingir um peso estável, idealmente mantendo-o por 6 a 12 meses. Por quê?

  • Estabilidade de resultados: se você ainda está perdendo peso ativamente, a lipoaspiração pode não refletir seu contorno final. O corpo continua mudando e os resultados podem variar
  • Planejamento cirúrgico: quando o peso está estável, consigo avaliar melhor quais áreas realmente precisam de tratamento e planejar uma cirurgia mais precisa
  • Recuperação: um peso estabilizado geralmente significa hábitos mais consolidados, o que pode favorecer a cicatrização e o pós-operatório

Vale lembrar que a lipoaspiração não é um procedimento de emagrecimento, e sim de remodelamento de contorno. Ela remove gordura localizada e esculpe o corpo, mas funciona melhor em quem já está próximo do peso desejado e tem depósitos de gordura resistentes a dieta e exercícios.

Em alguns casos selecionados, a mini lipoaspiração pode ser realizada durante o tratamento com GLP-1, mas essa decisão deve ser individualizada em consulta e sempre com a medicação devidamente pausada antes do procedimento.

Como fica a coordenação entre endocrinologista e cirurgião plástico?

O trabalho em equipe é essencial. Quando você usa medicações como Ozempic ou Mounjaro e deseja fazer uma cirurgia plástica, o diálogo entre os profissionais é fundamental para sua segurança.

Na consulta, pergunto sempre sobre medicações em uso, e oriento o paciente a informar o médico prescritor sobre a cirurgia planejada. A avaliação desses fatores de risco deve ocorrer com tempo de antecedência suficiente antes da cirurgia para permitir ajustes no cuidado pré-operatório, se indicado, incluindo modificação da dieta e avaliação da viabilidade de suspensão temporária do GLP-1.

Alguns pacientes têm receio de interromper a medicação por medo de ganhar peso novamente. Essa preocupação é compreensível, mas a pausa de uma a duas semanas geralmente não compromete os resultados a longo prazo do tratamento, e a segurança cirúrgica deve sempre vir em primeiro lugar.

Existem outros cuidados além de pausar a medicação?

Sim. Além da suspensão da medicação no período correto, algumas medidas adicionais ajudam a aumentar a segurança:

  • Jejum adequado: seguir rigorosamente as orientações de jejum pré-operatório
  • Avaliação de sintomas: pacientes que têm sintomas gastrointestinais, incluindo náusea, vômito, dor abdominal, falta de ar ou constipação, devem aguardar até que os sintomas tenham dissipado antes de prosseguir com cirurgia eletiva
  • Comunicação transparente: informar toda a equipe cirúrgica e anestésica sobre o uso da medicação, mesmo que você já tenha pausado
  • Avaliação individualizada: em alguns casos, o anestesista pode optar por métodos adicionais de segurança, como ultrassonografia gástrica antes da cirurgia

Cada paciente é único, e o que observo na minha prática é que a maioria tolera bem a pausa temporária da medicação e retorna ao uso após a recuperação cirúrgica, conforme orientação médica.

Perguntas frequentes

Posso voltar a tomar Ozempic logo após a lipoaspiração?

O retorno da medicação deve ser discutido com o médico prescritor. Geralmente, aguardamos a recuperação inicial da cirurgia e a retomada da alimentação normal. Apesar das recomendações pré-operatórias, a orientação sobre a reintrodução dessas medicações no pós-operatório é escassa, por isso a decisão deve ser individualizada.

Se eu já parei a medicação há uma semana, estou totalmente seguro para a cirurgia?

A pausa de uma a duas semanas reduz significativamente o risco, mas considerando as meias-vidas prolongadas dos GLP-1 semanais (aproximadamente 6 dias para semaglutida e 5 dias para dulaglutida), não está totalmente claro se seguir essas diretrizes é suficiente para garantir que os pacientes não estejam em alto risco de aspiração. Por isso, a avaliação clínica completa e a comunicação com a equipe são fundamentais.

As medicações GLP-1 atrapalham a cicatrização ou o resultado da lipo?

Quando a medicação é pausada adequadamente antes da cirurgia, não há evidências de que ela comprometa diretamente a cicatrização. A preocupação principal é com o período perioperatório e a anestesia. Após a recuperação, o uso da medicação costuma ser retomado sem prejuízo aos resultados do contorno corporal.

Posso fazer outros procedimentos, como prótese de mama ou abdominoplastia, usando GLP-1?

Sim, as mesmas orientações valem para qualquer cirurgia que envolva anestesia geral ou sedação profunda. Dados recentes mostram que mais pacientes buscam cirurgia estética para completar sua jornada de perda de peso após usar medicações GLP-1, com 82% dos cirurgiões membros da ASPS reportando pedidos de consulta relacionados ao uso de GLP-1. A pausa da medicação e o planejamento cuidadoso se aplicam a todos os procedimentos.

A evolução da cirurgia plástica na era dos GLP-1

O aumento expressivo do uso dessas medicações está transformando a prática da cirurgia plástica. Os agonistas do receptor GLP-1 ganharam cada vez mais popularidade por sua eficácia no controle glicêmico e perda de peso, trazendo tanto benefícios quanto crescentes complexidades associadas a essas drogas – desde reações adversas e possíveis implicações à saúde, até a necessidade de gestão perioperatória.

Na minha experiência, o que vejo é um número crescente de pacientes que perdem peso com essas medicações e depois procuram cirurgia de contorno para tratar gordura localizada ou flacidez residual. Essa é uma combinação que pode trazer bons resultados, desde que feita com planejamento, segurança e no momento certo.

O futuro certamente trará mais estudos e protocolos refinados. Até que mais evidências estejam disponíveis, duas práticas-chave devem ser integradas aos protocolos perioperatórios: implementação de protocolo institucional para triagem sistemática de pacientes quanto ao uso de GLP-1, e incorporação de ultrassonografia gástrica.

Se você está em tratamento com Ozempic, Wegovy, Mounjaro ou qualquer outra medicação GLP-1 e deseja fazer lipoaspiração ou outro procedimento de contorno corporal, agende uma consulta. Vamos avaliar seu caso individualmente, discutir o melhor momento para a cirurgia, coordenar com seu médico prescritor e planejar cada etapa com foco em segurança e resultados.

Lembre-se: pausar a medicação temporariamente para sua segurança cirúrgica não significa perder os ganhos do tratamento. É um passo necessário para que você alcance seus objetivos estéticos com tranquilidade e saúde.

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Dr. Bruno Pagnoncelli
Cirurgião Plástico — CRM-PR 23.223 | RQE 2867
Curitiba – PR

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta
médica. Cada caso deve ser avaliado individualmente por um cirurgião plástico. Resultados variam de pessoa para pessoa.